A tradição da cerveja Inglesa

Falar de escolas de cerveja é sempre um desafio. Elas são uma tradição cervejeira, uma cultura, um modo peculiar, único e marcante de produzir e consumir a bebida, normalmente centralizadas em uma determinada região geográfica. Ao mesmo tempo em que são culturalmente definidas, são historicamente modificadas, transformadas, influenciadas e influentes em outros países, regiões e tradições. Portanto, é algo vivo e não é nada simples falar delas sem contar todo o percurso. E hoje o tema aqui é a cerveja inglesa!


Da mesma forma que a tradição germânica, é muito difícil generalizar e dizer quais são as características sensoriais da cerveja inglesa só pelo que está no copo. Até porque estamos falando não só da Inglaterra, mas do Reino Unido como um todo, envolvendo também Escócia e Irlanda. Mas é verdade, sim, que são todas Ales, ou seja, cervejas de alta fermentação. E que costumam ter baixa carbonatação e espuma. No entanto, dizer que todas são amargas e secas – a faceta mais conhecida hoje – pode ser um engano já que ao longo do tempo isso foi se transformando até chegar nesse ponto.

 

As origens da cerveja inglesa

 

Alguns estudos provaram que já havia cerveja quando o Império Romano chegou onde atualmente fica a Irlanda. E se sabe que muito provavelmente ao Norte da Europa eram consumidos outros fermentados espontâneos, como cidras e hidromel. No entanto, os primeiros registros apontam que a cerveja teria chegado com os colonizadores no século 3.

 

As mulheres eram as responsáveis por produzir a bebida, que era vendida ou trocada por itens para suas casas. Não demorou até que as pessoas passassem a consumir a bebida lá mesmo. Esses lugares foram chamados de “Ale Houses”. Logo, viraram ponto de encontro, negócios e confraternização. E receberam o nome de “Public Houses” – que por sua vez deu origem a abreviação “pub”, como até hoje são conhecidas.

Aliás, mais uma curiosidade linguística: “Ale” vem do dinamarquês “öl” e do anglo saxão “ealu”, palavras que foram levadas pelos colonizadores europeus e escandinavos e incorporados na Grã-Bretanha.

 

Sensorialmente, tanto as cervejas de Ales Houses quanto dos monges, que também fabricavam cervejas na região nos mosteiros, eram feitas com ervas para dar sabor as bebidas. O lúpulo mesmo só foi incorporado às cervejas a partir do século 14 por influências externas e só foi realmente apreciado a partir do século 17 na região de Londres. Os estilos de cervejas mais tradicionais, como as escocesas, até hoje usam pouco lúpulo.

 

A consolidação

 

Com a Reforma Protestante, a prática da cervejaria voltou a ser dos cervejeiros comuns, fora da igreja. Não raro, os pubs fabricam sua própria bebida. Mas com a Revolução Industrial, acabou se tornando mais barato comprar a cerveja inglesa pronta. Começava a era das Porters, cervejas que foram originalmente obtidas a partir de uma mistura de Old Ales e cervejas mais jovens, receita que foi aperfeiçoada no século 18.

Pouco tempo mais tarde surgiu um novo estilo, o Extra Stout Porter, pelas mãos de Arthur Guinness, cervejeiro irlandês que viu a popularidade da bebida em Londres. Stout significa robusto. Com a morte dele, quem assume o negócio é seu filho, aprimorando a receita e criando a Guinness Stout, patrimônio irlandês e uma das marcas de cerveja mais famosas do mundo. As India Pale Ales (IPAs) também surgem nesse período com seu alto amargor e ganham mais força principalmente no século 18, fase mais famosa das exportações inglesas.

 

Com o avanço da microbiologia e refrigeração, a cerveja inglesa, que antes eram fabricadas apenas no inverno, já podia ser feita o ano todo e não precisavam ser tão alcoólicas. Aliado a isso, o estabelecimento de impostos sobre a bebidas baseados no teor alcoólico, fez com que surgissem cervejas mais leves, como Brown Ales, Pale Ales e Bitters, que fizeram grande sucesso com a classe trabalhadora. Servidas nos tradicionais Casks – barris de madeira onde a cerveja era refermentada e servida por gravidade –, as Ales já eram definitivamente a bebida nacional.

 

A queda e o renascimento

 

Os ingleses até resistiram, mas logo as Lagers chegaram ao país na segunda metade do século 20 vindas da Alemanha e Leste Europeu. E por quase 30 anos a tradição das Ales Inglesas foi quase esquecida. Um dos motivos era a qualidade ruim de muitas Casks Ales. No entanto, um grupo que tinha acesso a boas cervejas do gênero se uniu pela verdadeira Ale inglesa nos anos 70. Era o CAMRA (Campaign for Real Ale).

 

Eles fizeram campanha e protestaram contra o fechamento das cervejarias, tendo grande sucesso. No entanto, eram associados a uma imagem retrógrada, ao passo que os consumidores das cervejas Lagers eram modernos. Foi só na virada do milênio que a estagnação da cerveja inglesa acabou. O governo britânico estabelecia uma lei reduzindo os impostos para os pequenos cervejeiros, que fizeram por merecer e conseguiram unir tradição e modernidade, fazendo renascer as Ales inglesas.

E aí? qual inglesa vai hoje? Escolha a sua!

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